Texto da Revista Trópico

em obras
ENQUETE
O que é arte pública?Por Sergio Sister, Dora Longo Bahia, Danilo Miranda, Arnaldo Antunes, Tadeu Chiarelli...




Artistas, críticos e curadores discutem a sua participação nas questões sociais
A seção "Em obras", de Trópico, lançou neste mês a enquete "O que é arte pública?" em virtude da ressonância do tema da 25ª Bienal ("Iconografias metropolitanas") e da recepção do evento Arte/Cidade. A questão não é nova, mas tem mobilizado artistas e curadores na busca de uma participação mais efetiva nos problemas sociais.
Pelas respostas recebidas, percebe-se que há uma confusão entre as definições de monumento público e intervenções urbanas, modelos de exibição da arte e papel do arquiteto, dilema entre espaços institucionais e "novos espaços", democratização do acesso à cultura e reconhecimento da presenca de agentes mercadológicos.
A reivindicação, contudo, é clara: trata-se de uma vontade de deselitizar a produção artística, abrindo-a para a participação coletiva, em resposta aos intoleráveis processos de exclusão em curso na sociedade contemporânea. Cresce o tom de defesa da interdisciplinaridade entre as esferas estéticas e sociopolíticas, debate que envolve artistas e não-artistas. A presente enquete coloca-se de fato "em obras": não pretende exaurir o assunto, mas, ao contrário, funcionar como fórum para a recepção de outras idéias. (Lisette Lagnado)
Jarbas Lopes
artista
Arte é pública, coletiva e socialista.
Ricardo Basbaum
artista e escritor
Não sei se acredito nisso: "arte pública"? Para quê? Somos sempre os mesmos a nos deslumbrarmos uns com os outros -artistas, críticos, curadores. "Quando você vem tomar chá lá em casa?" E por acaso os colecionadores, do alto de suas fortunas, disponibilizam seus preciosos itens colecionáveis para todos indiscriminadamente? Mais fácil nos museus, sob forte aparato de segurança e alarmes antifogo. Não sou eu mas dezenas de diferentes intelectuais que se debruçam nesse instante acerca do "declínio da esfera pública" -quando os espaços se tornam hipernormatizados é por que alguém (indivíduo, grupo, instituição, corporação) já negociou sua posse e administra os percursos que ali se atravessam. Ah! Logo, "arte pública" será aquela erigida sob o faro do artista atraído pelo "não-normatizado" -únicos espaços ainda habitáveis pela alteridade informe e imprevista, que inevitavelmente os transformam e transgridem. Parece que não se percebe (clássico caso de cegueira voluntária) que cada qual reinvindica um perfil de "público" que mais lhe interessa: situação oposta à anterior: querem do outro o que já está previsto nas cartilhas e manuais de instrução. Esquecem que assim não há jogo ou combate possível -somente manobras, displays repetitivos e ensaios sem tonificação. Arte pública, pra valer, seria: (1) intervenção desviante em circuitos; (2) acolhimento das energias e espaços -sempre os há, pois frestas ocorrem- em que respira o imprevisto e informe; (3) aceitação de efeitos completamente transformados pela ocupação e habitabilidade não-determináveis (resultados sendo radicalmente diversos das expectativas). Nada disso necessariamente conspira contra a excelência das experiências da arte contemporânea e suas linguagens em expansão; mas nos faz lembrar que o lugar em que ocorrem não pode ser mais aquele que outrora se denominava "público". Sem saudosismos, o que se quer é que se pense sobre que lugar é esse e que se potencializem ações e efeitos rumo à radicalidade necessária -ou seja, gestões tentativas visando instantes de afrouxamento do controle.
Carlito Carvalhosa
artista
Bom, de uma certa maneira, toda arte é pública. Porque ela existe naquilo que ela é e na resposta que ela provoca. Mas, saindo dessa definição, geralmente a gente tem uma tendência de achar que arte pública tem uma escala pública, ou seja, que não caberia em um espaço privado, no espaço de uma casa por exemplo. Teria que necessariamente habitar o espaço urbano, o espaço da cidade. Agora, na minha opinião, essa é uma definição um pouco arbitrária. Porque é mais baseada na questão da escala do que, digamos assim, de uma atuação social. Então, o que eu sinto é que a arte realmente tem a função de atuar na cultura e tem que ser pública, essencialmente, para ser arte.

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